Ranchocarne

Coisas que sublinhei. Alimentado sem pressa por Daniel Galera.

Jun 15
“Deep hole between her neckcords, smokeblue. Laddered boneshapes under the paper skin like rows of welts descending into the bosom of her dress. Eyes lowered to her work, blink when she swallows like a toad’s. Lids wrinkled like walnut hulls. Her grizzled hair gathered, tight, a helmet of zinc wire. Softly rocking, rocking.” Cormac McCarthy abrindo um capítulo de seu primeiro livro, The Orchard Keeper (1965), com a descrição de uma mãe pelos olhos do filho pré-adolescente. Vai escrever assim na putaquiospariu, ok? Ok.

Jun 6
“Writers are often asked, How do you write? With a wordprocessor? an electric typewriter? a quill? longhand? But the essential question is, “Have you found a space, that empty space, which should surround you when you write?” Into that space, which is like a form of listening, of attention, will come the words, the words your characters will speak, ideas - inspiration. If a writer cannot find this space, then poems and stories may be stillborn. When writers talk to each other, what they discuss is always to do with this imaginative space, this other time. “Have you found it? Are you holding it fast?” Let us now jump to an apparently very different scene. We are in London, one of the big cities. There is a new writer. We cynically enquire, Is she good-looking? If this is a man, charismatic? Handsome? We joke but it is not a joke. This new find is acclaimed, possibly given a lot of money. The buzzing of paparazzi begins in their poor ears. They are feted, lauded, whisked about the world. Us old ones, who have seen it all, are sorry for this neophyte, who has no idea of what is really happening. He, she, is flattered, pleased. But ask in a year’s time what he or she is thinking – I’ve heard them: “This is the worst thing that could have happened to me,” they say. Some much publicised new writers haven’t written again, or haven’t written what they wanted to, meant to. And we, the old ones, want to whisper into those innocent ears. “Have you still got your space? Your soul, your own and necessary place where your own voices may speak to you, you alone, where you may dream. Oh, hold onto it, don’t let it go.” Doris Lessing, no discurso de recepção do Nobel

May 27
“Caro amigo nessas poentas e ignotas horas da cidade em que as ruas ficam pretas e vaporosas na esteira dos carros-pipa e em que os bêbados e os desabrigados afluíram ao amparo dos muros nos becos ou terrenos baldios e gatos avançam aprumados e esguios nos temíveis perímetros vicinais, nesses corredores fuliginosos calçados de pedras ou tijolos em que filamentos de sombra dão às portas dos depósitos a feição de harpas góticas não há de caminhar outra alma além da sua.” Primeira frase de ‘Suttree’, romance de Cormac McCarthy, em tradução minha. Me tomou uma tarde inteira.

Apr 20
“But here now are some other sayings - I do not know whether they are of the same character as those which I have already given, or of a different character. Whether they be of the same character or not when looked at along with them, they have a character of their own, which cannot be distinguished from the others. But though this be the case, let me try to explain myself. There was a beginning. There was a beginning before that beginning. There was a beginning previous to that beginning before there was the beginning. There was existence; there had been no existence. There was no existence before the beginning of that no existence. There was no existence previous to the no existence before there was the beginning of the no existence. If suddenly there was nonexistence, we do not know whether it was really anything existing, or really not existing. Now I have said what I have said, but I do not know whether what I have said be really anything to the point or not.” Zhuangzi, The Adjustment of Controversies [link]

Mar 12
“Aleksei Alekséevitch caiu em cima de Andrei Kárlovich e, depois de o esmurrar, largou-o. Que fosse em paz.
Andrei Kárlovich, pálido de fúria, atirou-se a Aleksei Alekséevitch e deu-lhe um soco nos dentes.
Aleksei Alekséevitch, que não esperava um ataque tão repentino, tombou por terra. Ora Andrei Kárlovich sentou-se em cima dele, tirou da própria boca a prótese dentária e retalhou-o com ela de tal maneira que Aleksei Alekséevitch se ergueu do chão com a cara completamente escangalhada e uma narina rota. Deitando as mãos à cara, Aleksei Alekséevitch fugiu.
Ora, Andrei Kárlovich limpou a sua prótese dentária, pô-la na boca, estalou com ela várias vezes e, considerando que a prótese ficara bem encaixada, olhou à sua volta e, não vendo por perto Aleksei Alekséevitch, foi à procura dele.”
Daniil Harms, “Uma história de brigões”, A velha e outras e histórias

Feb 25
“All my life I have longed to be alone in a place like this. Even when everything was going well, as it often did. I can say that much. That it often did. I have been lucky. But even then, for instance in the middle of an embrace and someone whispering words in my ear I wanted to hear, I could suddenly get a longing to be in a place where there was only silence. Years might go by and I did not thing about it, but that does not mean that I did not long to be there. And now I am here, and it is almost exactly as I had imagined it.” Per Petterson, Out stealing horses

“A natureza está à espera, lá fora, mas mantém exactamente a mesma força: recuou, é certo, mas não está sequer prisioneira. Está num outro sítio, num outro ponto da batalha, e afia as lâminas; não reza, não suplica, não pede piedade. Não reza, afia as lâminas.” Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na era da técnica.

Jan 26
“Meu cavalo, no qual eu continuava montado, talvez esperando uma ordem, palpitava sem se mexer, quente e suarento. Dei-lhe algumas palmadas no pescoço e no lombo úmido, que ele recebeu com movimentos repetidos da cabeça, e, desencilhando-o, dei alguns passos na direção da margem da laguna, puxando-o pelas rédeas para incitá-lo a acalmar sua sede. Durante um momento ele sorveu a água com tranqüilidade, quase com delicadeza, e depois, aparentemente satisfeito, endireitou de novo o pescoço e começou a olhar, talvez, ao longe, a linha curva do horizonte que passva, regular, do outro lado da laguna. Contudo, como penso ter dito mais acima, era-me difícil saber com exatidão para onde estava olhando e deduzir daquela placidez, alterada de vez em quando por estremecimentos nervosos, leves e distraídos, como se não soubesse que vivia em seu próprio corpo, os pensamentos, ou como queiram chamá-los, que o visitavam. Comecei a olhar fixamente para seu perfil, e ele, como se não tivesse percebido, nem uma única vez virou a cabeça para mim, com uma obstinação tão visível que parecia estar me tratando intencionalmente com indiferença. Durante alguns segundos, tive a impressão inequívoca de que fingia, e, quase em seguida, a total convicção de que ele sabia mais do universo do que eu mesmo, e portanto compreendia melhor do que eu a razão de ser da água, do capim cinzento, do horizonte circular e do sol chamejante que fazia seu pêlo suarento brilhar. Por causa dessa convicção vi-me de repente num mundo diferente, mais estranho do que o habitual e no qual não somente o exterior como também eu mesmo éramos desconhecidos. Tudo mudara num segundo, e meu cavalo, com sua calma impenetrável, me tirara do centro do mundo e me expelira, sem violência, para a periferia. O mundo e eu éramos outros, e em meu íntimo nunca voltamos a ser completamente os mesmos a partir daquele dia, de modo que quando desviei os olhos do cavalo e voltei-os para a água azul-clara, para o capim acinzentado, vendo a cápsula azul que se fechava apoiando-se na linha do horizonte conosco dentro, dei-me conta de que, naquele mundo novo que estava nascendo diante de meus olhos, o supérfluo eram meus olhos, e que a paisagem estranha que se estendia em torno, feita de água, capim, horizonte, céu azul, sol chamejante, não lhes estava destinada. O silêncio era total, de modo que qualquer ruído que se escutava contra ele, por mínimo que fosse, era audível, nítido, em cada um de seus sons decompostos: um deslizamento animal no meio do capim, minha própria respiração, e até o pulsar do meu coração, que de repente um tuco-tuco pareceu ter começado a arremedar ao longe, uns ruídos nasais curiosos e apagados que, sacudindo a cabeça, distraído, o cavalo começou a emitir. Uma idéia absurda me ocorreu: eu disse para mim mesmo que, exilado de meu mundo familiar e no meio daquele silêncio desmesurado, o único modo de evitar o terror consistia em desaparecer eu mesmo e que, se me concentrasse o suficiente, meu próprio ser se apagaria arrastando consigo para a inexistência aquele mundo em que era possível começar a entrever o pesadelo.” Juan José Saer, As Nuvens.

Jan 19
“It may look like boasting — but what I tell you is truth — I began to reflect how magnificent a thing it was to die in such a manner, and how foolish it was in me to think of so paltry a consideration as my own individual life, in view of so wonderful a manifestation of God’s power. I do believe that I blushed with shame when this idea crossed my mind. After a little while I became possessed with the keenest curiosity about the whirl itself. I positively felt a wish to explore its depths, even at the sacrifice I was going to make; and my principal grief was that I should never be able to tell my old companions on shore about the mysteries I should see. These, no doubt, were singular fancies to occupy a man’s mind in such extremity — and I have often thought since, that the revolutions of the boat around the pool might have rendered me a little light-headed.

(…)

As I felt the sickening sweep of the descent, I had instinctively tightened my hold upon the barrel, and closed my eyes. For some seconds I dared not open them — while I expected instant destruction, and wondered that I was not already in my death-struggles with the water. But moment after moment elapsed. I still lived. The sense of falling had ceased; and the motion of the vessel seemed much as it had been before, while in the belt of foam, with the exception that she now lay more along. I took courage and looked once again upon the scene.

Never shall I forget the sensation of awe, horror, and admiration with which I gazed about me. The boat appeared to be hanging, as if by magic, midway down, upon the interior surface of a funnel vast in circumference, prodigious in depth, and whose perfectly smooth sides might have been mistaken for ebony, but for the bewildering rapidity with which they spun around, and for the gleaming and ghastly radiance they shot forth, as the rays of the full moon, from that circular rift amid the clouds which I have already described, streamed in a flood of golden glory along the black walls, and far away down into the inmost recesses of the abyss.”
Poe, Edgar Allan, 1809-1849. “A Descent into the Maelstrom”. [Bicentenário do nascimento do mestre. Obrigado, maldito.]

Jan 12
“É o peito de outra pessoa o que nos respalda, só nos sentimos respaldados de verdade quanto há alguém atrás, a própria palavra o indica, à nossa espalda, assim como em inglês, to back, alguém que talvez não vejamos e que nos cobre as costas com seu peito que está a ponto de nos roçar e acaba sempre nos roçando, e às vezes, inclusive, esse alguém nos põe a mão no ombro com a qual nos tranqüiliza e também nos sujeita. Assim dorme ou crê dormir a maioria dos esposos e dos casais, os dois se viram para o mesmo lado quando se despedem, de maneira que um dá as costas para o outro ao longo da noite inteira e se sabe respaldado por ele ou ela, por esse outro, e no meio da noite, ao despertar sobressaltado por um pesadelo ou ser incapaz de conciliar o sono, ao padecer de uma febre ou crer-se sozinho e abandonado no escuro, basta virar-se e ver então, de frente, o rosto do que o protege, que se deixará beijar o que no rosto é beijável (nariz, olhos e boca; queixo, testa e faces, é todo o rosto) ou talvez, meio adormecido, lhe porá a mão no ombro para tranqüilizá-lo, ou para sujeitá-lo, ou para agarrar-se, eventualmente.

***

(…) e talvez seja isso que nos leve a ler romances e crônicas e a ver filmes, a busca da analogia, do símbolo, a busca do reconhecimento, não do conhecimento. Contar deforma, contar os fatos deforma os fatos e os tergiversa e quase os nega, tudo o que se conta passa a ser irreal e aproximado embora seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tenham sido ou acontecido, mas de que permaneçam ocultas e sejam desconhecidas e não contadas, enquanto se relatam ou se manifestam ou se mostram, mesmo que seja no que parece mais real, na televisão ou no jornal, no que se chama realidade ou vida ou vida real até, passam a fazer parte da analogia e do símbolo, já não são fatos, mas se transformam em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz em palavras nem imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto e se conte tudo, para que nunca tenha ocorrido nada, uma vez que se conta.

***

Com vocês, que são mais jovens, isso ainda não deve acontecer, mas chega um momento em que a gente confunde o que viu com o que contaram, o que presenciou com o que sabe, o que lhe aconteceu com o que leu, na realidade é milagroso que o normal seja distinguirmos, distinguimos bastante afinal de contas, e é estranho, todas as histórias que ao longo de uma vida se ouvem e se vêem, com o cinema, a televisão, o teatro, os jornais, os romances, vão se acumulando todas e são confundíveis. Já é assombroso que a maioria das pessoas ainda saiba o que de fato lhes aconteceu. (…) Digamos que, fora casos extremos, a memória própria ainda se mantém bastante a salvo, bastante incólume, a gente se lembra do que viu e ouviu pessoalmente de uma maneira distinta de como se lembra dos livros ou dos filmes, mas a coisa já não varia tanto quando se trata do que os outros viram e ouviram e presenciaram e souberam e depois nos contaram. E há o que se inventa.”
Javier Marías, Coração tão branco.

Jan 6
“Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. Não sei se minha nação vai morrer e não sei qual dos meus personagens tem razão. Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e dessa maneira faço perguntas. A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo.” Milan Kundera, Entre nós [entrevista a Philip Roth]

Dec 20
“Deusa mordível, puta
Vinda a sorrir do Letes,
Talvez um dia aquietes
Tua carne alva e corrupta?

Jamais, deusa, não traias
Teus pobres fiéis que babam,
Que em êxtases se acabam
Por ti, pelas tuas aias.

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso.”
Alexei Bueno, Silvia Saint (fragmento)

Dec 13
“For me, degenerate modern wretch,
Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
And think I’ve done a feat today.”
Lord Byron, Written After Swimming from Sestos to Abydos

“Na escrita, os adjetivos representam o medo de que o substantivo, sozinho, leve-nos ao Nada.” Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos.

Dec 8
“Black, you are my enemy
And I cannot get close to thee.
A life is ruled by enmity,
And I can’t weaken that.
The only way that I can see
Is to hold you close to me
And love you, for it’s meant to be;
I weaken your attack.”
Bonnie Prince Billy, Black

Page 1 of 2