“Not that long ago, everything we saw was real.”
—Aaron Dignan, Game Frame
July 2011
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“Toda memória é ficcional. É um pedaço da memória com mais um pedaço da fantasia. A fantasia é o que temos de mais real dentro de nós. A fantasia é a minha verdade mais profunda. A fantasia é aquilo que não conto para ninguém, só para as pessoas que amo muito. Ela é tão verdadeira que quando vou contar essa fantasia, faço uma metáfora para protegê-la. Pois a fantasia é o que tenho de mais profundo dentro de mim. É o meu real mais absoluto. Não existe uma memória pura, toda memória é ficcional.”
—Bartholomeu Campos de Queirós em entrevista ao Rascunho
“The most difficult discipline is to be what you are.”
—Trungpa Rinpoche, Crazy Wisdom
“A hipster is a person who isn’t sure who he is, but knows what he’s supposed to be, is awkwardly forced to express it, and feels conflicted but proud about doing so.”
—[comentário de leitor em matéria da New Yorker a respeito da prateleira de literatura hipster]
“It will occur to Rand later, as she´s driven home, that during the tête-à-tête with Drinion she´d felt sensualy aroused in a way that had little to do with being excited or nervous, that she´d felt the surface of the chair against her bottom and back and the backs of her legs, and the material of her skirt, and the sides of her shoes against the sides of her feet in hose whose microtextured weave she could also feel, and the feel of her tongue against her teeth´s rear and palate, the vent´s air against her hairline and the room´s other air against her face and arms and the taste of cigarette smoke´s residue. At one or two points she´d even felt she could feel the exact shape of her eyeballs against her lid´s insides when she blinked - she was aware when she blinked. The only kind of experience she could associate with it involved the cat that she´d had when she was a girl before it got hit by a car and the way she could sit with the cat in her lap and stroke the cat and feel the rumble of the cat´s purring and feel every bit of the texture of the cat´s warm fur and the muscle and bone beneath that, and that she could sit for long periods of time stroking the cat and feeling it with her eyes half-shut as if she was spaced out or stuporous-looking but had felt, in fact, like she was the opposite of stuporous - she felt totally aware and alive, and at the same time when she sat slowly stroking the cat with the same motion over and over it was like she forgot her name and address and almost everything else about her life for ten or twenty minutes, even though it wasn´t like spacing out at all, and she loved that cat. She missed the feel of its weight, which was like nothing else, neither heavy nor light, and at times for almost the next two or three days she felt like she feels now, like the cat.”
—David Foster Wallace, The Pale King
“If you are immune to boredom, there is literally nothing you cannot accomplish.”
—David Foster Wallace, The Pale King
“Gaivotas voam em círculos raiados de sol sobre telhados luzidios e palha amassada, fisgando tripas na feira e escapando por cima de jardins cercados, muros cobertos de lanças e portas com fechadura tripla. Gaivotas pousam nos frontões caiados, nos pagodes rangentes e estábulos estercorosos; volteiam torres, sinos cavernosos e praças escondidas com vasos de urina ao lado de poços tampados, observadas pelos tocadores de mula e cães com focinho de lobo, ignoradas pelos tamanqueiros corcundas; sobem ganhando velocidade pelo pedregoso Rio Nakashima e passam por baixo dos arcos de suas pontes sendo entrevistas nas portas das cozinhas e observadas pelos fazendeiros que caminham sobre cristas elevadas e rochosas. Gaivotas furam as nuvens de vapor que saem dos tachos das lavanderias; sobrevoam milhafres desfiando carniça felina; estudiosos divisando a verdade em padrões ínfimos; adúlteros nas casas de banho; vagabundas de coração partido; megeras desmembrando lagostas e caranguejos; seus maridos limpando cavalas nas lajes; filhos de lenhadores amolando machados; cerieiros derramando ceras; oficiais impiedosos espremendo taxas; laqueadores estiolados; tintureiros sarapintados; apaziguadores fingidos; mentirosos descarados; tecedores de tatames; cortadores de junco; caligrafistas de lábios tintados molhando pincéis; livreiros arruinados por livros encalhados; damas de companhia; provadores de comida; roupeiros; pájens cometendo roubos; cozinheiros com o nariz escorrendo; cantinhos escuros de sótãos com costureiras fuçando nos calos dos dedos; trabalhadores fingindo doença para não trabalhar; porqueiros; caloteiros; devedores mascando os lábios e esbanjando desculpas; credores que já ouviram tudo apertando o cerco; prisioneiros assombrados por uma vida mais feliz e velhos devassos assombrados pela mulher alheia; professores esquálidos incitados a perder a compostura; bombeiros agindo como saqueadores de ocasião; testemunhas caladas; juízes comprados; sogras cultivando roseiras-bravas e rancores; droguistas amassando pilões; palanquins levando filhas que ainda não casaram; freiras taciturnas; putas de nove anos de idade; as carcomidas beldades de outrora; estátuas de Jizo ungidas com ramalhetes; sifilíticos espirrando por narizes apodrecidos; ceramistas; barbeiros; mascates de óleo; curtidores; cuteleiros; carroceiros de excrementos; porteiros; apicultores; ferreiros e cortineiros; torturadores; amas de leite; abjuradores; batedores de carteira; os recém-nascidos; os que crescem; os firmes e os dóceis; os enfermos; os moribundos; os fracos e os inconformados; por cima do telhado de um pintor que se afastou primeiro do mundo, depois da família, para mergulhar numa obra-prima que se afastou do criador; até voltarem ao ponto de partida de seu voo, em cima da varanda da Sala do Último Crisântemo, onde uma poça de chuva da noite anterior está evaporando; sobre essa poça, Magistrado Shiroyama observa os reflexos borrados de gaivotas voando em círculos raiados de sol. Esse mundo, ele pensa, contém somente uma obra-prima, que é ele próprio.”
—David Mitchell, Os mil outonos de Jacob de Zoet