“A história dita seus meandros, as personagens precisam de singularidade e também de coesão. O bom do texto literário, sobretudo quando se trata de narrativa longa, é que o autor pode fundar sua própria coerência. Essa autopoiese é prerrogativa da arquitetura literária. Uma decisão, mesmo que decorra de um mero impulso, pode alterar os rumos de uma vida para sempre, somos títeres, titereiros. Não há ordem, há caos, um caos que precisa ser superado a cada dia — não há dúvida de que ignorar isso torna a vida mais confortável, suportável. O excepcional faz parte do ordinário, o ordinário não se compõe de coisas idênticas (não quando o olhar se aproxima, assume as meticulosidades); o excepcional difere do impossível e difere também do abstrato absoluto. Gosto dessa inclinação e desse tangenciar, gosto de estressar, em suspensão e tensão, a mecânica da narrativa até a fronteira do absurdo, exigir das personagens o seu limite. A existência por si só é absurda, seus fenômenos e seu corriqueiro são absurdos, nisso está a graça de contar ou, como me parece mais adequado dizer, a graça de recontar (o refazer que será sempre imperfeição, falha, aversão, parcialidade).”
Paulo Scott, em entrevista ao Rascunho

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