“Dez dias depois, quando a Spokane International já voltara a funcionar, Grainier tomou o trem até Creston, na Colúmbia Britânica, e na tarde do mesmo dia retornou para o sul através do vale que um dia fora seu lar. As labaredas haviam crestado as bordas dos dois lados do vale e se apagado a meio caminho da encosta abaixo do outro lado das montanhas, segundo os sinais a que Grainier prestara muita atenção. O fogo havia eviscerado o vale em toda a sua extensão como uma fogueira dentro de uma trincheira. Por toda a vida, Robert Grainier se lembraria vividamente do vale incendiado ao anoitecer, a coisa mais onírica que já vira acordado — os tons pastel brilhanes da última luz sobre sua cabeça, algumas nuvens bem altas e brancas captando a luminosidade do dia que morria além do vale, outras caneladas, cinzentas e róseas, a mais baixa roçando os picos das montanhas Bussard e Queen; e sob aquele céu magnífico o vale negro, inteiramente imóvel, o trem passando com grande estardalhaço, mas incapaz de despertar aquele mundo morto.”
Denis Johnson, Sonhos de trem
Notes