“Se artistas são pessoas como as outras, ao menos na ignorância e fascínio diante da morte, o trabalho que produzem tem sempre algo da perspectiva — real ou potencial, não importa — de um doente. No ótimo O imperador de todos os males, uma “biografia do câncer” que se estende por ciência, história, política, crônica social e linguagem, Siddhartha Mukherjee diz que todo paciente começa como um narrador que confessa sua história: “Nomear uma doença é descrever certa condição de sofrimento — é um ato literário antes de ser um ato médico”. Na via oposta, pode-se acabar existencialmente preso a simbolismos que começam na linguagem: quando o tratamento do câncer é chamado de “guerra”, rotula-se esse paciente como um soldado que precisa ser corajoso e manter o ânimo. Daí a culpá-lo por uma eventual derrota, como se ele não tivesse feito esforço suficiente para viver, é um passo lógica e moralmente curto. Tais metáforas, mostra Sontag, são frutos de valores históricos. A associação entre tuberculose e poesia no século XIX, por exemplo, é uma resposta ao conservadorismo vitoriano, ou desdobramento dele. O que seria impensável nos menos heroicos anos 1980, quando surge a AIDS e a carga punitiva cristalizada num de seus primeiros apelidos, “peste gay”. Hoje há uma espécie de híbrido entre os extremos romântico e pragmático: cultuando a forma física (dietas, ideal apolíneo de beleza) e uma certa relação entre inteligência e neurose (nada é menos popular na TV, na publicidade e nas redes sociais que a antiga “normalidade” de comportamento), nosso tempo é contraditório quando avalia o desvio dos padrões de saúde. E, como consequência, os artistas que os representam. Do ponto de vista científico, nenhum destes males traz menos ou mais capacidade criativa, mas faça o teste: há mais sugestão de “alma literária” na depressão de David Foster Wallace ou na psoríase de John Updike? Nas internações psiquiátricas de Lima Barreto ou na úlcera que Nelson Rodrigues tratava como “gata de luxo”?”