“Também já não sabem de nós os que deixamos para trás ou se foram do nosso lado, para nós ficaram fixos e inamovíveis tal como os mortos, e a simples perspectiva de voltar a encontrá-los e de ter de contar para eles e ouvi-los requer de nós um esforço tremendo, em parte porque nos parece que nem eles nem nós gostaríamos de contar nem de ouvir nada. “Que preguiça”, pensamos, “essa pessoa não assistiu aos meus dias por muito tempo. Costumava saber quase tudo de mim, ou pelo menos o principal, e agora se criou nela um vazio que não poderá ser preenchido, mesmo que eu relatasse com todos os detalhes o que aconteceu sem seu conhecimento imediato. Que preguiça relacionar-se de novo, e se explicar, e que transtorno reconhecer no mesmo instante as velhas reações, os velhos vícios, as velhas inquietudes e os velhos tons, os meus com ela e os dela comigo; e até os mesmos ciúmes carcomidos e as mesmas paixões, só que aplacadas. Nunca mais poderei vê-la como uma nova pessoa, tampouco como meu ser cotidiano, ela será para mim desgastada ao mesmo tempo que distante.”
Javier Marías, Seu rosto amanhã vol. 3 (Veneno, sombra e adeus).

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