“Na ficção, mantém-se um eixo de valor que dá sentido global ao texto e que permite a constituição deste ponto de vista único sobre o mundo que é a literatura, mas a voz que pensa (ou as vozes que pensam) nunca é a mesma que escreve. A consciência dos outros é um pressuposto absoluto do espírito da prosa, não apenas referencial, mas organicamente linguístico. A fissão não é mais apenas entre a realidade e as palavras (uma separação de qualquer modo invencível), mas entre sujeitos. O escritor tem de saber que a voz que ele escreve em cada instante do texto não pode ser completamente a dele. Se essa separação se apaga, morre o prosador. Na hipótese melhor, nascerá o poeta; na hipótese comum, simplesmente retiramo-nos do mundo estético e nos fundimos com a vida, como na cena de um filme fantástico em que alguém, diáfano, atravessa uma parede dando um passo tranquilo e silencioso para se fundir consigo mesmo.”
Cristóvão Tezza, O espírito da prosa - Fragmentos de um ensaio sobre a literatura. Ilustríssima, Folha de SP, 22/4/12