“não somente o vazio
mas o vazio com todas as forças
agora (engula essa água da praia) pode entrar”
“A história dita seus meandros, as personagens precisam de singularidade e também de coesão. O bom do texto literário, sobretudo quando se trata de narrativa longa, é que o autor pode fundar sua própria coerência. Essa autopoiese é prerrogativa da arquitetura literária. Uma decisão, mesmo que decorra de um mero impulso, pode alterar os rumos de uma vida para sempre, somos títeres, titereiros. Não há ordem, há caos, um caos que precisa ser superado a cada dia — não há dúvida de que ignorar isso torna a vida mais confortável, suportável. O excepcional faz parte do ordinário, o ordinário não se compõe de coisas idênticas (não quando o olhar se aproxima, assume as meticulosidades); o excepcional difere do impossível e difere também do abstrato absoluto. Gosto dessa inclinação e desse tangenciar, gosto de estressar, em suspensão e tensão, a mecânica da narrativa até a fronteira do absurdo, exigir das personagens o seu limite. A existência por si só é absurda, seus fenômenos e seu corriqueiro são absurdos, nisso está a graça de contar ou, como me parece mais adequado dizer, a graça de recontar (o refazer que será sempre imperfeição, falha, aversão, parcialidade).”
Paulo Scott, em entrevista ao Rascunho
“devorar pausadamente a luminosidade desse youtube
emprestado a descanso (sem volume suficiente)
dezessete polegadas do quarto vizinho e da boca
espumante da avenida joão pessoa enquanto nada
acontece (e jamais acontecerá) sem nossa grécia
luterana – no refrão tudo é vontade de acertar
e em tudo cabem iphones e mostradores trincados
vinis e até logo: teus “sim eu quero”, tua franja
teus olhos sem emendas, surpresa, esclarecidos”
“Foi bom porque comeram e voltaram logo. Foi difícil pra ela se sentir à vontade diante do olhar de objeção do amigo de Paulo, ele não é diferente de outros com quem ela já se defrontou, não deveria haver surpresa, mas é tão incompatível com tudo o que ela está sentindo desde que acordou esta manhã. Segura a pandorga que a incomodara tanto por sua cor quanto por estar içada, barulhenta, atrapalhando a visita ao mar desobediente, esse mar que deveria estar azul e luminoso, como o das revistas. Quando pediu pra comprá-la estava determinada a quebrá-la, a dar sumiço na primeira oportunidade, mas esperou e entendeu o que de fato sentia (e o que se modificou). Paulo subirá daqui a pouco, está conversando com o seu amigo. Maína entregaria dez anos de sua vida pela linguagem deles. Por sorte há o caderno, supõe que logo haverá outro, a suposição vem com o impulso súbito de guardar a pandorga e suportar o seu bordô. Tira a roupa, pega a caixa-balde de peças Lego Creative Building descoberta de relance embaixo da cama essa tarde quando procuravam o lençol e, enquanto espera, monta dois bonecos (brincará com eles até Paulo entrar no quarto, talvez influenciado pelo amigo e sem saber o que dizer àquela menina distraída com cubos de plástico sobre a cama). Em suas mãos, os bonecos vivem sua vida minúscula. A boneca sabe voar, o boneco não, mas ela canta pra ela (com a voz de Maína) enquanto vivem sua história de Legos sobre o colchão onde o lençol ainda não foi estendido. Os minutos passam e os dois se aquietam, a boneca aterrisa, convida-o pra sentarem um ao lado do outro sobre a espuma, ele deita a cabeça de plástico sobre o seu colo de plástico, pede sua mão em casamento e chora.”
Paulo Scott, Habitante irreal
“o modo como desliguei a tevê durante o rock e fui até a farmácia comprar o remédio do estômago e depois de tomar o triplo da dose recomendada sair atrás dos mendigos que provavelmente tenham achado meu celular daquela vez que perdi quando saí envergonhado do restaurante porque não segurei as lágrimas enquanto ouvia a caixa postal do nokia com as melhores lentes de fotografar que um nokia barato poderia ter, o modo como coleciono garrafas plásticas da água mineral natural petrópolis imaginando como poderia adaptá-las, pelo menos umas cinco amassadas com tampa pra conter o ar entre as paredes de cada pulmão e porque assim eu jamais afundaria quando esquecer (no azul da baía de botafogo) que a baía de botafogo é perigosa, modo não ficar esperando os pés da escada juntarem com os da cadeira tonart, onde trepamos uma vez de luz apagada enquanto chovia forte e relampejava, modo vez e cada vez mais nervoso diante de qualquer guichê, modo chuva forte, chuveiro, chuveirada, livros que preciso ler urgentemente aturando novatos que só entenderão algo de literatura quando lançarem um primeiro livro e perceberem que a opinião pública não está nem aí pra eles, modo esperar a solidão dos novatos, modo leitor, modo desistência de premiação, modo não ser patrono de feiras do livro, modo nunca deixar o rio de janeiro de verdade, modo vergonha alheia, casais brigando, modo amizade com pessoas do meio literário, modo olhar-se no espelho e descobrir que você fica bem sem barba (apesar das olheiras), apesar das mosquinhas que incomodam querendo sugar o salitre da minha narina (onde guardo terra do parque lage e guardanapos do bar rebouças) e que só existem porque preciso me disciplinar mentindo a todos que nunca tomei soco na cara e nunca sangrei e, sobretudo, que nunca procuro teu rosto na web e (deitado na cama à tarde) nunca roo as unhas e nunca tenho saudades”